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Baiano que fez sua própria máquina de voar é tema de filme

Desde Ícaro com suas asas de cera e mel até as primeiras decolagens de Santo Dumont e dos irmãos Wright, o sonho de voar levou muitas pessoas, em diferentes partes do mundo, a investir no seu lado inventor. Embora o primeiro voo comercial tenha ocorrido em 1914 e os ultraleves e asas-delta tenham surgido na década de 70, não faltam aqueles que desejam alçar voo por meios próprios. Este foi o caso de Astrogildo Andrade Santos, um protético que chamou a atenção da cidade de Ipiaú ao testar um “helicóptero” construído no quintal de casa.

A fascinante história deu origem ao curta-metragem “Astrogildo e a Astronave”, dirigido por Edson Bastos e produzido pela Voo Audiovisual. Com duração de 18 minutos, o filme, livremente inspirado em acontecimentos reais, dá um destino inusitado ao personagem.

Registros da época mostram que Astrogildo foi a grande atração da Exposição Agropecuária de Ipiaú de 1970, pois escolheu o evento para tentar decolar com sua aeronave feita de alumínio e equipada com volante e banco de uma Kombi. O helicóptero, como gostava de chamar, seria alimentado por um motor moto-contínuo, capaz de reutilizar indefinidamente a energia gerada por seu próprio movimento.

Embora a família garanta que ele nunca alçou voo, não faltam moradores que afirmem tê-lo visto decolar. Fotos da época mostram Astrogildo, falecido em 2001, dentro do equipamento em terra. “Desde a aprovação do projeto, percebi que tinha a responsabilidade de construir uma história que ressignificasse a imagem de Astrogildo, que era pejorativamente retratado como louco por parte da população. Espero que as pessoas possam entender a essência dele através do filme”, declarou Edson Bastos.

Essa mudança na percepção dos moradores de Ipiaú aconteceu com Joelma, transexual retratada em curta homônimo dirigido por Edson. Após ganhar as telas na pele do ator Fábio Vidal, ela passou a ser mais respeitada na cidade. Natural de Ipiaú, o diretor tem se dedicado a contar histórias da região, auxiliando na construção da memória local. Trabalho que inclui o resgate da obra do escritor Euclides Neto, com a produção de filmes baseados em contos do autor.

No filme, Astrogildo (Antônio Fábio) ganha um ajudante para concretizar seu sonho, o menino Finício, interpretado por Davi Oliveira, ator infantil ipiauense. O pequeno quer chegar ao céu para conhecer o pai, que acredita ter seguido para lá antes de ele nascer. É essa parceria que dá forças para que o inventor vença seus medos e convoque os jornalistas para anunciar seu primeiro voo.

O diretor descobriu o criativo conterrâneo no livro “Ipiaú: Histórias da nossa história”, organizado por Sandra Regina Mendes e Dilson Araújo dos Anjos. O texto sobre o protético foi escrito pelo jornalista José Américo Castro. “É um personagem universal, a história dele poderia ter acontecido em qualquer lugar. O que movimenta a narrativa é o desejo, inerente ao ser humano, de romper barreiras e ultrapassar limitações”, analisa Edson.

A expectativa é que uma das filhas de Astrogildo e algumas de suas netas estejam presentes na estreia do curta, marcada para o dia 21 de abril, às 20h30, no Cinema do Museu, em Salvador. A viúva e vários outros parentes participarão da sessão em Ipiaú, que acontece no dia 30 de abril, às 20h, na Praça Rui Barbosa. Edson conta que os familiares foram bem receptivos ao projeto, mas nenhum deles viu o filme ainda.